O primeiro tinha que ser em inglês.
Tinha, eu pensava. Não faria muito sentido se fosse qualquer outra coisa, quer dizer, o nome é em inglês então nada mais justo do que começar dessa maneira e todo esse quadro no qual encaixam a tua in-di-vi-du-a-li-da-de com o mundo, sabe, meio que estimula, é um pouco difícil de escapar e sempre um bom exercício.
Caio. Não que fosse demorar muito, mas eu já começava a ver o que iria vir nos minutos a seguir, só tratei de piorar tudo que já previra. Quê? Não, não é pra entender mesmo, o que há pra entender, tudo sempre é tão mastigado que às vezes é bom deixar as coisas menos claras. Ou ainda, completamente borradas.
O importante é que foi um fracasso, pelo menos enquanto durou. Claro que eu fui tomado por um surto incontrolável de querer expandir minhas idéias ainda assim tornando-as sucintas, algo que não consigo fazer corriqueiramente, principalmente nas insônias rotineiras. Seriam insônias, ou apenas o meu tempo consciente? Está tudo sujeito a mudanças, e isso eu pude ver no exato momento em que, ainda outra vez, uma cabeça encontrou repouso em meu xenofóbico ombro.
O formato tá errado, só queria poder dizer isso, mas eu posso continuar? Ela disse (não ela, nem aquela, ainda, mas a outra, aquela que eu quero acreditar que pode me ajudar, de olhares curiosos e um tanto peculiares, que eu receio ansear por ver esta semana – e não como eu anseio ver uma mulher, mas como um prisioneiro anseia ver a luz do dia que perdeu há tempos) que eu sou crítico comigo mesmo, meu modo de agir, pensar e (por que não?) sentir, embora isso não me ajude a variar.
Enfim.
Eu cheguei no apartamento irritado como raramente fico, ocasionalmente batendo as mãos contra as paredes (por razões extremamente egoístas e imbecis – mas é o que eu tenho sido ultimamente – e ainda que eu seja crítico quanto ao comportamento… Bem, dá pra entender o resto, não?) antes de, é claro, pegar uma garrafa de cerveja da geladeira e me sentir outro anti-herói de filme cult ao abri-la sem usar o abridor quando a tampa fora feita para ser aberta apenas através do uso do utensílio (hum, que técnico), e então largos sorvos furiosos. Claro, o tempo passou, os dois chegaram e palavras voltaram a me distrair, me acalmar, me curar de uma revolta adolescente que teima em ainda culminar na minha cabeça imatura de guri irresponsável-que-desaponta-e-engana-os-pais-e-não-se-importa-com-o-futuro-e-só-dorme.
O cigarro já pairava na boca dele, enquanto ele escutava aquele meu CD que eu comprara sem saber direito do que se tratava e só porque aquela menina bonita legal e inatingível gostava, e eu parei pra fumar um pouco também. E foi bom, conversas sem muito nexo, sem muito assunto importante, mas com uma intimidade que eu julgara ter perdido com eles.
Eu acordei e eles tinham ido embora e colocado parte do lixo numa sacole que estava em cima da mesa de vidro da sala. Eu procurei arrumar o apartamente novamente, e depois elas vieram, pra compensar a ausência completa do fator feminino na noite anterior. As duas mais antigas chegaram antes, mas tudo pareceu melhorar quando as outras duas chegaram e aquele filme com o Matt Damon ainda tava na TV enquanto uma delas me disse pra não, não abrir as portas e eu, sendo o cão mandado que likes-to-be-taken-advantage-of (é assim?) obedeci. Aí a campainha ficou constante assim do nada e eu tive que abrir a porta e tava ali ela tocando a campainha, ela que eu já escrevi até demais sobre (praticamente SÓ sobre?) e a que cara, as coisas mudam né, e bah, tipo, amigos com uma intimidade maior assim do nada, né? será que foi aquela vez no cavanhas? ah tanto faz, agora era isso. Caio. Denovo, volta prum ritmo constante, te decide, ômi. Ou Oni, sei lá. Nunca soube lá, um dia eu vou saber, espero.
Me lembrei de palavras bonitinhas que tinha na minha cabeça quando peguei o carro e tava descendo aquela rua da cavalhada ontem, eu acho. Era tipo: tudo que eu tenho é meu, e minhas coisas não me satisfazem, mas é tu que eu quero e sei que não vou te ter. O que me consola é pensar que, se eu viesse a te ter algum dia, provavelmente não saberia onde colocar meus sentimentos, porque tu seria minha, e minhas coisas não me satisfazem, é por isso que Te quero. A partir do momento em que te tornasses minha, não teria a quem querer, pois se já te possuo, perco o meu desejo por Ti e não posso transmiti-lo pra algo que é meu. Tu tem que ser só tua pra eu te querer.
Parece tribalistas, ou algum outro brasileiro metido a anti-herói cult. E não tá bem construído. Algum dia eu paro e organizo.
Espero.
Tá, então, elas tinham chegado, como eu tinha dito anteriormente, e isso pareceu diminuir o peso das minhas preocupações quanto ao humor das minhas convidadas. Um dia, aquela a quem eu costumava presentear com a grafia incorreta do pronome pessoal reto de 3º pessoa do singular feminino (propositalmente, óbvio) me disse que certas pessoas não mudavam, e que isso era prejudicial. Ela age da mesma maneira. Exatamente como era há dois anos atrás, e me machuca da mesma maneira, talvez com um gosto mais amargo e suspiros de leve, um pouco da ilusão que eu deixo quebrar na minha frente denovo e denovo e aqui tô eu escrevendo sobre isso denovo e denovo. E os pequenos joguinhos que ela compartilha com a que me ajuda não parecem ter fim, mesmo quando as duas têm relações. Ignoro, elas nunca fizeram para me machucar, eu nunca disse que me machucava (tá, provavelmente já disse, mas fazem anos e as pessoas costumam mudar, porque permanecer o mesmo é prejudicial e o mundo NÃO gira em volta de mim, o cara quieto que faz piadas idiotas toda hora e não sabe mais interagir com a pessoa por qual ele…. CORTA. Não era pra ser sobre isso e tu sabe, seu sofrenildo de uma figa, louco varrido que conversa com a própria consciência na madrugada sem poesia) e mesmo assim, não quero interferir pois eu sei que elas têm um forte laço por causa disso e sua relação se baseia nesse laço, assim como a minha com Ela se baseia numa submissão de quem foi derrotado e aceita com prontidão masoquista servir eternamente ao oponente vencedor. Isso não muda nada, nada muda. Máscaras caem, novas máscaras aparecem, e é isso. Eu nunca vou conseguir ser romântico sem apelar ao pessimismo, caos e derrota.
Foi mais tarde, eu assistia televisão numa poltrona, e todas acomodaram-se no sofá, de maneira que eu estava longe de todas (Ela estava do meu lado mas preferiu sentar no colo da outra, os jogos são melhores assim – e nós mal conservamos o que restou de uma amizade que não sabemos – e da parte dela provavelmente não há vontade nenhuma – como ressucitar). Foi imprevisto que o convite surgiu da que fazia piadas com todas as coisas, mesmo que fossem quase não engraçadas, e de quem eu costumava ser mais distante naquele grupo inteiro – ah, isso mudara, não? – “senta” – e lá fui eu, não fora por mera obrigação e eu vi que humildade pode ser interpretada como antipatia, vivo essas situações toda hora. Eu sentei, e ficamos próximos, encostados nossos braços, desajeitados, ambos, e o meu acanhado, como sempre. E eu procurei, sendo o pessimista incansável que sou, não ver as coisas quando elas são colocadas na minha frente, até que ela baixou a cabeça e pousou-a em meu magro e provavelmente desconfortável ombro. Pequenos gestos, toques, estamos próximos um do outro – acho até que a outra ali ficou com um pouco de ciúmes – e eu pude sentir conforto, um acanhado, tímido, desajeitado conforto de estar ali próximo dela, que era tão parecida comigo em essência e tinha caminhos diferentes. No primeiro ano, eu podia te ver, acima dEla, que eu não via. Hoje, tudo que eu queria era poder te ver acima dela (queria poder VER a grafia correta e não as minhas palavras antigas por todo o lugar enchendo o meu presente de passado desnecessário), sentir um pouco do que sinto por ela direcionado para ti, e tudo seria mais fácil. Não quero te ter, quero deixar, quero permitir que alguma coisa brote do meu peito onde uma cicatriz em espiral ainda parece me perfurar quando eu penso estar completamente cicatrizada. Quero poder me controlar, e deixar-te ser tua, conseguir tomar de volta a parte de mim que eu dei de presente pro abismo e poder trocar uma pequena parcela dela por uma pequena parcela tua. Nada de dependência e tanta dor e medo, só aproveitar, estar ciente de que dessa vez, desenhamos um quadro simétrico, e isso não o deixa menos belo de maneira alguma. Tu não seria minha, e eu não seria teu, mas ainda assim, a nossa escolha seria caminhar um do lado do outro, como um só ser. Antes isso do que render completamente tudo que se tem para dar e mostrar-se vulnerável, tornar-se medroso e inconsequente por isso e desabar tudo que planejou tanto construir.
Eu sou jovem, mas sinto que senti mais do que devia ter sentido até agora.
Eventualmente a pizza chegou, porque tudo sempre acaba em pizza, O Iluminado acabou e eu me despedi de todos, nada de especial, nada poético ou dolorido, alguns pensamentos soltos e vagos, então peguei o elevador resgatei o pedaço de carne da geladeira e voltei para casa, o fim de semana acabara, and I felt fine, I guess.
Como sempre, planejei dormir cedo, e agora meu horário para levantar é daqui a exatas duas horas. Nada mudou, depois de tudo isso. Nada muda, exceto o que acaba mudando, é claro.
O primeiro tinha que ser em inglês e acabou sendo, o que já foi não vai mudar.
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- Published:
- October 29, 2007 / 7:15 am
- Tags:
- caio fernando abreu, desabafo, diário, noite, pensamentos
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