Baboseiras

Estavam os dois num quarto escuro, depois que todos os outros já haviam-se ido. A lua cheia brilhava por detrás das espessas escuras nuvens e produzia dezenas de linhas paralelas de luz dentro do quarto. Ocasionalmente um carro passava e a luz invadia cada centímetro do quarto numa fração de segundo, e mostrava um deitado no sofá, as mãos na nuca, servindo de travesseiro para a pesada cabeça que parecia girar de leve, e o outro na cama, de lado, coberto até o pescoço muito embora o calor fosse sufocante, como se as cobertas fossem um casulo do qual não poderia sair até que o dia amanhecesse. Foi o do sofá que falou, assim como quem não quer nada, quando o do casulo estava finalmente conseguindo dormir.

-Sabe, eu acho que esse é o auge de nossas míseras existências.

O da cama virou-se, um pouco incomodado pelo que o outro dissera.

-Comassim?

-Daqui pra frente, tudo desmorona, cara, a gente querendo ou não. Eles ensinam que a gente tem que seguir o coração e buscar um futuro melhor e toda essa merda, mas não é assim porra nenhuma. O futuro nos reserva o mesmo que reservava pros nossos pais na nossa idade, um emprego nada gratificante com algumas promoções de vez em quando, embora continue sendo a merda merda em suma, um casamento que vai desmoronar antes de completar seis meses, e que vai estar destinado ou a uma vida ao lado de uma pessoa com a qual não se tem mais intimidade alguma ou num divórcio que vai, é claro, nos deixar meio sem saber o que fazer. Alguns outros relacionamentos e depois estamos velhos, e ou sozinhos ou mal-acompanhados.

-E filhos?

-Filhos? Com toda essa merda acontecendo por aí? Pra começar, depois de uma idade a gente começa a pensar porque eles mudaram tanto, deixaram de ser aquelas crianças que nos tinham como heróis para virar esses adolescentes porra-louca “eu não tô nem aí, só quero curtir” sem idéia alguma do que fazer na vida e…

-Nós não somos assim?

-Claro que somos! É exatamente por isso que eu tô te falando, porque nós nos tornamos assim, mais cedo ou mais tarde. Isso ou completos lunáticos, aquele tipo de pessoa que concentra todos seus esforços nos estudos e esquece de viver. Esquece não, tem medo, isso sim. E daí mil sessões de terapia não vão resolver porra nenhuma.

-Meu, muito interessante esse papo chato sobre como a vida é um ciclo que se repete sempre mas eu tô com sono, sabe? Com sono e sem vontade de conversar.

-Tá, então, o que tu espera do futuro?

-Boa noite.

-Tu acabou com ela hoje, né?

O da cama lentamente começou a se mover, ainda virado para a parede, e sentou-se na cama.

-Como tu sabe?

-Bem, pra começar tu não falou direito comigo desde então.

-É, acabei com ela.

-Tá vendo? A gente fica sofrendo por essas merdas aí e esquece de não dar a mínima enquanto ainda podemos.

-Eu nunca quis não dar a mínima. – ainda mirava a parede.

-E o que tu quer?

-Eu quero deixar alguma coisa pra trás, sabe?

-Tipo filhos?

-Não, não tipo filhos. – agora virou-se, tinha um sorriso incomodado na face, como se não esperasse escutar algo do gênero. – Tipo algum livro, alguma atitude que marque outras pessoas, não sei…

-Isso é difícil demais. E tu não é do tipo de se esforçar pra conseguir coisas difíceis. Quer dizer, o teu relacionamento com ela começou a ficar sério e tu pulou fora. Pode até ser porque tu é medroso, mas sabe o que é?

-O quê?

-É a teu vontade de não fazer o mesmo que todo mundo faz. Casar, ter um emprego. Ser um cidadão que contribui para a sociedade. Só que tu já parou pra pensar no que mais dá pra fazer? Quer dizer… Não é só porque tu quer não ser igual que tu vai ter uma vida diferente da que os teus pais.

-A gente não vai chegar a lugar nenhum.

-Ninguém chega. A diferença entre os nossos pais e o mendigo ali na rua é que eles escolheram se adequar, e o mendigo pensou que pudesse contornar esse “kit de cidadão” que é dado pra todo mundo. Nenhum dos dois escapou. Os nossos pais trabalham e o governo dá sopa pro mendigo, é tudo a mesma coisa, se tu desconsiderar o luxo. Já notou que todo mundo hoje em dia é deprimido, doente, bi-polar ou tem transtorno de atenção?

-Sim

-Os mendigos devem ter milhares desses problemas, mas como a única preocupação deles é sobreviver, eles não exploram essas partes do cérebro deles, então não acabam reclamando tanto quanto a gente.

-Os mendigos tão sempre reclamando, e têm uma vida depressiva e nada gratificante.

-E quem mais é assim?

-Hm…

-É. Isso aí.

-E qual é o propósito dessa conversa toda? Estabelecer que a gente vive uma vida pré-definida da qual não há escapatória? – Agora ele sentava na beira da cama, com os olhos bem abertos, como o carro que passava pôde mostrar, enquanto o permitia uma pausa – Que a felicidade sempre foi uma ilusão pra nos motivar a continuar a existir e que se tomarmos o caminho oposto ao que deveríamos trilhar vamos encontrar o mesmo resultado?

-É. – ele permanecia deitado no sofá, como se nenhuma daquelas coisas o preocupasse. – A maioria dos nossos sonhos são inatingíveis, então… É, é isso mesmo.- Tinha um pequeno sorriso arrogante na face.

Pássaros cantarolavam na rua, os primeiros raios de sol começavam a tranbordar da linha do horizonte. O da cama tinha uma expressão de tédio no rosto, como se já esperasse por aquilo tudo.

-Uau, legal. Agora me deixa dormir?


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