Inimaginável e exatamente como era pra ser.

Suspiro ainda mais uma vez e não recupero minha dor, mas sim o gosto de ontem à noite. A prova de que eu ainda sou uma criança com medo de crescer, e talvez um pequeno passo, mesmo que quase de impulso por ter medo de cair após um empurrão atrás de outro – pelo menos preferi manter o equilíbrio a simplesmente deixar-me cair sobre o chão – para vencer meus medos, meus fantasmas e a mim mesmo. Não vou temer meu oponente ainda que ele aparente ser capaz de me esmagar sem esforço algum pois, ainda que não consiga entender suas razões, consigo me sentir como ele. Consigo, mas quero aprender a sentir-me das mais diversas maneiras possíveis.

E eu estou confuso demais. Das nove pessoas que eu realmente beijei até o presente dia, posso dizer com certeza absoluta que a maior parte eu queria simplesmente apagar da minha lembrança. Não beijei por mim, beijei por medo. Fiz coisas terríveis por medo.

E ontem não beijei por medo, ainda que ele não me abandonasse quando eu insistia intrépido para que ele se retirasse. Ele persistiu. Eu não o venci. Ela o venceu. A vitória dela destruiu os medos de ambos. Eu a beijei, e eu quis fazê-lo.

Isso é raro. Tanto eu beijar alguém querendo fazê-lo quanto eu simplesmente beijar alguém quanto eu querer fazer o que quer que seja.

Sinto como que acordado após o coma que me consumia por tanto tempo – talvez seja só outro sonho, e logo logo apareça outro pesadelo para confirmar que eu continuo trancado em mim mesmo – mas quero acreditar que eu esteja ainda confuso devido ao descanso prolongado, e acostumando meus olhos com a luz do mundo que não é somente meu, como eu imaginei por tanto tempo.

Tenho muito ainda na cabeça, mais ainda no peito, para decifrar, mas posso sentir que, depois da cegueira abismal na qual descansei entre tanto caos e tempestade, eu me sinto tranqüilo, alegre e quase despreocupado. Eu sei que posso ser assim aos olhos dos outros, mas ser e sentir são coisas extremamente diferentes.

Nós, ontem, eu, hoje. Ainda não sabemos se iremos conseguir nos desvencilhar e passar a ser o mesmo, mas tudo bem. O que vier está por vir, e não quero lutar contra isso. Tenho palavras presas ainda que não são pra ela, e fico feliz de nada ter dito – e preocupado por considerar a idéia; ainda não te desvendei, nem estou perto disso.

A equação apareceu à minha frente há pouco, e vou tomar o tempo necessário para resolvê-la.

Estou feliz por ter algo novo na minha velha vida de jovem. Um mistério do qual eu já ouvira falar mas nunca julguei ser verdade. Não sei de nada, e isso não me assusta. Me sinto salvo, ainda que só por esse momento efêmero. Salvo. Te quero perto, sem ilusão e poesia.

Abro os olhos com um beijo teu. Só não sei como agradecer.


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