Não há cura para a vida.
Ele não sabia se ainda tinha algo a dizer. Suas palavras pareciam ter se alojado no fundo da garganta, como aquelas mágoas que nunca somos capazes de expulsar, mas o problema dessa vez é que ele não sabia por quê elas estavam lá, nem o que diriam se pudessem ser pronunciadas. Não eram palavras suprimidas pelo medo, eram palavras que ele mesmo não conseguia entender.
As outras palavras, estúpidas, banais e medíocres, lhe saíam com mais facilidade da boca, sem fazer esforço algum, mas havia algo de estranho ultimamente. Não é que não podia sentir, ou expressar seus sentimentos, é que ele tinha palavras demais, palavras soltas, palavras mortas, palavras íntimas, que provavelmente acabaram se encontrando dentro dele e se misturando, deixando de estar imbuídas de seu significado original, passando a significar mais, ainda que não soubessem exatamente o quê. E tais palavras não poderiam ser ditas até que ele conseguisse entender a razão por trás delas – razão de existir, razão aglomerada de várias razões únicas que deixaram de ter o impacto original para tornar-se uma sopa de caos incompreendido. Inconsciente, desconhecido, significação abstrata. Desconexo sentido que criara para motivar a própria existência. Não teria muita importância, é verdade. Nada lhe parecia ter. Aos outros, tudo era curioso, mas para ele, sua própria curiosidade havia sido devorada pelo receio de influenciar, participar, ter de ficar em evidência. Não conseguia, isso lhe era o mais difícil – sua curiosidade pairava nas considerações estrangeiras, em olhares analíticos. O interesse do resto lhe assombrava, lhe fazia perder a vontade – e então sobrava-lhe apenas camuflagem, impotência e desgosto. Sua neblina mental disforme e monocromática já não parecia mais ter um consenso, e destinos se colidiram.
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- Published:
- November 6, 2008 / 3:29 am
- Category:
- filosofia vazia, incompleto, pensamentos soltos
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